
Leônidas Oliveira é arquiteto e urbanista, filósofo, professor e secretário de Estado de Cultura e Turismo de MG _ Belo Horizonte tem um Patrimônio Cultural da Humanidade, mas ainda parece não saber plenamente o que fazer com ele. Quando nos aproximamos dos dez anos do reconhecimento da Pampulha pela Unesco, a constatação é incômoda: o título existe nos documentos, nos registros internacionais e na história da arquitetura mundial, mas ainda não aparece com a força que deveria nas ruas, na sinalização, nos roteiros, nas campanhas, nas escolas, nos mapas e na vida cotidiana da cidade.
Ser Patrimônio Mundial significa pertencer a uma categoria rara de bens reconhecidos por seu valor universal excepcional. Em Minas Gerais, estado com 853 municípios, apenas quatro municípios abrigam bens culturais com esse reconhecimento: Ouro Preto, Congonhas, Diamantina e Belo Horizonte, pela Pampulha. Isso dá a medida da singularidade do título.
Sinalização
Talvez o exemplo mais simples seja também o mais simbólico: Belo Horizonte ainda não dispõe de uma sinalização urbana forte, clara e digna dizendo ao morador e ao visitante que ele está entrando em um território reconhecido pela humanidade. Não é preciso ir longe para entender a importância disso. Em Ouro Preto, no trevo de chegada, a cidade se apresenta como Patrimônio Mundial. Em Diamantina, também se vê a presença do título como parte da identidade pública da cidade. O visitante não precisa adivinhar; a cidade lhe diz isso.
Nos lugares onde há título mundial, há quase sempre uma batalha permanente de apropriação. Comunidades, gestores, instituições culturais, guias, educadores, empresários, universidades e moradores disputam, atualizam e defendem o significado daquele reconhecimento. Patrimônio Mundial não é ponto de chegada. É convocação permanente para conservar, interpretar, educar, promover e fazer daquele bem uma experiência viva.
É justamente isso que ainda falta à Pampulha. Não se consolidou, nesses dez anos, uma experiência urbana e turística à altura do título mundial. A orla, os jardins, os edifícios, a lagoa, os equipamentos culturais e os serviços turísticos ainda não se articulam plenamente como o grande roteiro da modernidade brasileira. Mesmo iniciativas importantes, como a retomada do barco turístico na lagoa, precisam estar integradas à narrativa do Patrimônio Mundial.
Na Espanha, usa-se uma expressão precisa para isso: “puesta en valor”. Não se trata apenas de conservar um bem. Trata-se de colocá-lo em valor: interpretá-lo, promovê-lo, sinalizá-lo, explicá-lo, integrá-lo ao turismo, à educação, à economia criativa e ao cotidiano da população.
A candidatura, retomada em 2012, transformou uma possibilidade aberta desde 1996 em dossiê, articulação institucional e reconhecimento internacional. A Pampulha foi inscrita porque demonstrou ser uma paisagem cultural moderna: arquitetura, arte, jardins, lagoa e território integrados em uma invenção brasileira, moderna e profundamente mineira.
<CW0>Talvez Belo Horizonte ainda não tenha compreendido que sua maior força turística é cultural. Mesmo no turismo de negócios, o que torna a experiência da capital mais marcante são seus bares, restaurantes, cozinha, espetáculos, museus, mercados, música, arquitetura, hospitalidade e modos de convivência.</CW>
Dissociar cultura e turismo é um dos grandes entraves para compreender a potência da cidade. A Pampulha é o exemplo mais evidente dessa falsa separação: patrimônio, arquitetura, arte, paisagem, lazer, educação, memória, turismo e identidade urbana ao mesmo tempo. Não pode ser tratada apenas como bem cultural a conservar, nem apenas como ponto turístico a visitar. Precisa ser compreendida como experiência integrada de cidade.
O mundo já reconheceu a Pampulha. Belo Horizonte não precisa apenas conservá-la. Precisa assumi-la. Assumir a Pampulha significa sinalizar, narrar, educar, conservar, celebrar e integrar cultura e turismo em uma política permanente de cidade. Ter um Patrimônio Cultural da Humanidade é uma honra, mas, acima de tudo, é uma responsabilidade civilizatória.
Fonte: "site:otempo.com.br "Belo Horizonte"" – Google Notícias























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